10 maio 2015

DIAGNÓSTICO PARTICIPATIVO DA COMUNIDADE QUILOMBOLA OLHO D'ÁGUA DOS NEGROS









CURSO: CAPACITAÇÃO SEMENTE DOS SABERES
TRABALHO: LINHA DA VIDA
ALUNO: LUIZ DOS SANTOS NETO


TRABALHO: LINHA DA VIDA

 
Trabalho de pesquisa apresentado à Universidade Estadual do Piauí – UESPI, tem como requisito parcial apresentar a história da minha familia e associação na qual a minha familia faz parte, exigido pelo curso de capacitação semente do saberes.



 

ESPERANTINA-PI
NOVEMBRO DE 2014

1 INTRODUÇÃO............................................................................................03
2 DESENVOLVIMENTO............................................................................................04
3 CONCLUSÃO.........................................................................................................10
4 REFERÊNCIAS......................................................................................................11

INTRODUÇÃO

O trabalho a seguir cita a atual história da organização de minha comunidade, mostra também todas as etapas de construção da história, a organização da minha familia, quem foram os principais fundadores, porque foi formada, quais as mudanças mais importantes ocorreram, quem participou do processo de mudança, quais os impactos destas mudanças e o que é produzido pela minha organização e familia no âmbito da agricultura familiar.Neste sentido, o trabalho descreve com detalhe como foi o processo de trabalho, o que eu pude descobrir sobre a minha organização, e o que isso significa para mim.

 

DIAGNÓSTICO PARTICIPATIVO DA COMUNIDADE NEGRA RURAL
QUILOMOLA OLHO DÁGUA DOS NEGROS

4.1 - BREVE HISTÓRICO

A Comunidade Olho D’água dos Pires, hoje Olho D’água dos negros, tem início no ano de 1847, quando Mariano de Carvalho Castelo Branco e sua esposa, Rosa Maria Pires, passaram a administrar a propriedade Boqueirão que Maria Rosa Pires e sua irmã Calota Pires receberam do pai. Instalando-se no Boqueirão, Mariano Carvalho Castelo Branco tratou de montar sua fazenda, dando início a construção da casa grande e trazendo alguns escravos para sua propriedade.

Mariano Carvalho Castelo Branco e Maria Rosa Pires tiveram três filhos. Em 1892, devido a problemas de saúde, Mariano Carvalho Castelo Branco muda-se para Parnaíba-PI, buscando tratamento médico, e deixa sua cunhada Calota Pires na administração da fazenda. Inexperiente, Calota Pires vende a propriedade para seu irmão Valdivino de Sousa Pires, que por sua vez entrega a administração da fazenda a seu cunhado Manoel Ribeiro. Por volta de 1900, perfura-se uma cacimba que se torna jorrante, dando início a um olho d’água. A partir daí a fazenda passou a se chamar Olho D’água dos Pires, em alusão ao sobrenome do proprietário.

Valdivino de Sousa Pires e sua família, no ano de 1907, em virtude do estado de saúde de Manoel Ribeiro, seu cunhado e administrador da fazenda, passaram a morar na Olho D’água dos Pires. Na propriedade, Valdivino de Sousa Pires encontrou muitos negros que por falta de opção, continuavam morando e trabalhando na terra, ainda sob o regime de escravidão.


Com a morte do Capitão Valdivino a fazenda passou a ser administrada por Seus filhos Domingos Pires e Jacy Coelho Pires. Por motivos pessoais Domingos Pires vende sua parte da propriedade para sua irmã. Por volta de 1980, Jacy Coelho Pires tentou montar o mesmo regime da escravidão daquela época, quando os seus avós trabalhavam com seus escravos, mas como os negros já estavam mais informados não aceitaram a sua forma de trabalho, Jaci Coelho Pires não resistiu à pressão dos negros que já estavam bem organizados para reivindicar seus direitos e vendeu-a para o Dr. Francisco de Araújo Linhares, advogado cearense que residia em Esperantina. Dr Linhares, como era mais conhecido, em plenos anos 90 do século XX, passou a implantar o seu regime de escravidão moderna; cercou o campo de futebol, proibiu a entrada dos negros na área da Casa Grande (sede da fazenda) assim impedia-os de pegar água e frutas; frutas que por diversas Dr. Linhares mandou envenenar. Além de atirar em animais dos moradores que adentravam a área da Casa Grande, chegando ao absurdo de disparar 3 tiros em um morador. As reminiscência históricas do período da escravidão existente na comunidade (engenho, Casa Grande, cercas de pedra etc.) passaram a ser destruídas intensivamente durante a gestão do Dr. Linhares. Já com elevado nível de consciência e organização e com apoio de algumas entidades, os moradores de Olho D’água dos Pires passaram a pressionar o Dr. Francisco de Araújo Linhares para que o mesmo vendesse a propriedade. Em 2002, com recursos de um projeto financiado pela entidade estrangeira FESTINOFRE, conseguido com o intermédio do Centro de Educação Popular Esperantinense – CEPES e de uma doação da Prefeitura de Esperantina-PI, a propriedade Olho D’água dos Pires foi desapropriada. Em 2004, a conquista maior foi concretizada, a prefeitura deu a propriedade em regime de comodato, por tempo indeterminado, para a Associação de Desenvolvimento Comunitário dos Pequenos Produtores da Comunidade Olho D’água dos Pretos – ADCOPOL. Hoje devido ao nível de consciência e orgulho de serem negros, os moradores mudaram o nome da comunidade para Olho D’água dos Negros. Esta comunidade é hoje referência na região, tornando-se um centro de visitação de estudantes de todos os níveis de ensino, desde o fundamental ao universitário. Então se sente a necessidade de estarem resgatando essa cultura negra através de atividades que expressem a realidade da região.

4.2 – LOCALIZAÇÃO
Olho D’água dos Negros como conhecido hoje, fica na Microrregião do Baixo Parnaíba Piauiense, no Território dos cocais, localizada na zona rural do município de Esperantina-PI, a 18 km da sede da cidade. O acesso central da comunidade é feita através da PI 117 que liga os municípios de Esperantina a São João do Arraial e Matias Olímpio, a comunidade dispõe de uma área limitada de aproximadamente, 677,6/há de área livre, mais 169,6 de área de reserva legal totalizando em um total de 832,6/há. A comunidade Olho D’água dos Negros limita-se ao norte com a localidade Cipó, ao sul com a localidade Vila Esperança, ao leste com a localidade Morada Nova e a oeste com a localidade Santa Cruz.

4.3 FORMA DE ORGANIZAÇÃO
A comunidade se organiza através da associação de desenvolvimento comunitário dos pequenos produtores da comunidade olho d´água dos pires – ADECOPOL fundada em 1998, na qual pessoas de minha familia faz parte da diretoria e do quadro social da mesma,sendo que é a instâncias político-representativas da referida comunidade compostas por diretorias e conselho fiscal eleitas em assembleia geral. Hojeexistem no quadro social 70 associados,em função dessa organização. Em 2004 a Comunidade Olho D’água, passou a ser denominada de comunidade quilombola Olho D’Água dos Negros, por conta da reafirmação das famílias em se identificar como quilombola, a Fundação Palmares com Base no decreto de Nº 4887/20 de Novembro de 2003, expediu o registro de reconhecimento, tornando as famílias como quilombolas. Através dessa definição por parte da comunidade o INCRA, órgão responsável pelo processo de titulação expediu o título hoje a comunidade é titulada, respectivamente, a comunidade também se organiza através do grupo de jovens, na qual eu sou membros, tem como tradição a cultura tendo como referência a dança do coco, capoeira de quilombo, time de futebol masculino e feminino, dança de quadrilha, as comemorações anuais que são: festejo da comunidade (padroeiro São Benedito), alforria dos negros, novenário do mês de Maio, 20 de novembro dia da consciência negra.

4.3 – ASPECTOS GEOGRÁFICOS
A região faz parte do Território dos Cocais, com vegetação de transição caatinga/cerrados e área de cocais. Segundo levantamento através do Ater no Quilombo, feito pelo o EMATER, o solo predominante na área estar assim distribuído: areno-argiloso e argilo-arenoso, sendo que 04 (quatros) eco paisagem predomina na referida área, Morro: essa eco paisagem caracteriza-se pela presença de pedras, e seu relevo é mais irregular, acidentado, variando de suave a forte ondulada, o solo apresenta-se mais. Seco e a tonalidade varia de vermelho para amarelo, sempre misturado com pedra e piçarras, apresenta boa drenagem e mantem-se úmido por mais tempo, as áreas de Morro são pequena equivalente a 04/há, baixão: caracteriza-se por ser uma área mais úmida das eco paisagem e encontram-se nas áreas mais baixas possui solo de característica argilosa a coloração é a escura, a fertilidade variando de media a alta. A área ocupada pelo baixões, atingem cerca de 15/há, Mata Seca: essa eco paisagem caracteriza-se por ser uma faixa de transição entre chapada e o baixão, o solo é de tipo de barro geralmente seco ou misturado com areia, profundo com lençóis freático mais superficial.
As variedades vegetais têm espécies tais como: umburana de cheiro, ameixa, pau d’arco, favela, pitomba, jatobá, marmeleiro, tucum, babaçu, carnaúba, cedro, tamboril, mufumbo, mororó, jenipapo, jurema, pau pombo, mandacaru, jurubeba, espinheiro, amargoso, azeitona, criuli, mutamba, sicupira, eucalipto, tamarina, buriti, figueira, marfim, tamboril, pinho, torem, arranca toco, grão de bode, bacuri, pequi, janaguba, amora, salsa, cajá, cajá-umbu, amêndoa, coco d’água, taboca, algumas dessas plantas são utilizadas pela comunidade na medicina caseira e outras na construção de infra estrutura como: cercas e casas.
Os animais silvestres existentes são: gato do mato, onça preta, onça vermelha, gato maracajá, gato mariço, raposa, veado, cutia, tatu, peba, mambira/tamanduá, preá, paca, onça pintada, cachorro do mato, girita, guaxinim e jacaré. As aves existentes na localidade são: juriti, jacu, bem-te-vi, vinvin, chico preto, pipira, papagaio, jandaia, galo campina, corrupião, rechinou, sangue de boi, xoró, fogo Pagou, bigode, andorinha, papa capim, gavião, frango d’água, tetéu, xexéu, garça, marreco, coruja, pica pau preto, pica pau pedrês, coã, rescongo e siricora.
As cobras encontradas são: cascavel, coral, de duas cabeças, papaova, caninana, salamanta, de cipó, veado, preta e jararaca. Os animais domésticos são: galinha, pato, peru, capote, jumento, caprinos, ovinos, suínos, bovinos. As frutíferas mais comuns são: ata, caju, laranja, tangerina, cajuí, goiaba, ciriguela, limão, manga, mamão, amêndoa, acerola, carambola, e banana. As principais culturas agrícola da região são: arroz, milho, feijão, mandioca, fava, abóbora, melancia, quiabo, pepino, batata doce e batata inglesa.
            A comunidade dispõe de forte presença de recurso hídricos, com 04 (quatro) poços cacimbões, uma cacimba jorrante próximo a casa grande, 02 (dois) poço tubular com bombas e sistema de encanação de água para as famílias, ainda como potencialidade de recurso hídrico destaca-se os índices pluviométricos da região, que chegam até 1.350mm/anos, existem também na comunidade energia monofásica que beneficia todas as famílias.
4.4 – ASPECTOS DEMOGRÁFICOS
Na comunidade moram hoje 110 famílias, e conta com a população de 660 habitantes, sendo 317 do sexo masculino e 343 do sexo feminino. Os jovens representam um total de 46, destes 27 são homens e 19 são mulheres. As crianças representam um total de 125, 60 são mulheres e 65 são homens. Os adultos totalizam 448 pessoas, destes 200 são homens e 248são mulheres, os idosos somam 41, onde 24 são homens e 17 são mulheres. O número de membros por família está em torno de 06 pessoas.
4.5 – ASPECTOS ECONÔMICOS
A Comunidade Olho D’água dos Negros basicamente vive da agricultura familiar e criam pequenos e médios animais, extração do babaçu, da fabricação caseira de doces, cultivo de roça de sequeiro e do cultivo de hortas de forma agroecologia.
No cultivo agrícola as famílias produzem (milho, arroz, feijão, mandioca),Planta-se ainda em menor escala fava, abóbora, melancia, quiabo, pepino, batata doce e batata inglesa.Em sua maioria o sistema utilizado no plantio é o consorciado e a área varia de 1,0 a 1,5 hectares por família, boa parte vai para o auto consumo como: arroz, feijão e milho, a mandioca vai para o consumo humano e dos animais, apenas o excedente é comercializado, algumas famílias já trabalham com sistema de hortaliças orgânicas, horta do sistema pais:produção agroecologia integrada sustentável. A colheita da produção é feita manualmente, sendo armazenada em sacos de nylon, paneiros e garrafas PET. É caracterizado basicamente pela agricultura familiar. Estas culturas são produzidas utilizando o sistema tradicional de cultivo inteiramente dependente de chuvas, cujos impactos de variações climáticas, características da região, tornam-se extremamente vulneráveis e de alto risco para a agricultura, ocasionando, dentre outros problemas, uma baixa produtividade.
A semente cultivada é o grão produzido na comunidade, guardadas individualmente em sacos de nylon, paneiros e garrafas PET, as trocas entre os comunitários são constantes, poucos agricultores utilizam sementes híbridas. Os habitantes da Comunidade Olho D’água dos Negros consomem cerca de 90% da produção, comercializando o restante para comprarem os demais materiais que não produzem. Geralmente o alimento é insuficiente para alcançar a safra seguinte, o período crítico são os meses de janeiro a abril, devido à baixa produção e falta de serviços (emprego). A criação de suínos, bovinos, caprinos e ovinos é resumida a poucas cabeças, criada no sistema semi extensivo. Compondo ainda a criação de galinha, pato, peru e capote para o consumo doméstico.
Vale ressaltar que a horta sistema pais - produção agroecologia integrada sustentável, é principal atividade de minha familia, e gera uma boa renda, tanto que atualmente é vendido 20 molho de cheiro verde ao dia, totalizando em 600 molho ao mês, vendido a 1,00 R$ é = 600,00 reais, além do cheiro verde, é vendido mais 240 pés de alface ao mês a 1,50, = 360,00 R$, sendo que da atividade da hortaliça a minha familia arrecada por mês um total de 960,00 reais.
                                          
   
O calendário sazonal da comunidade tem início com o cultivo das culturas de milho ligeiro, arroz, mandioca e feijão. O preparo da terra consiste outubro. O plantio geralmente ocorre no mês de dezembro, variando de acordo com as primeiras chuvas. Uma capina é realizada em janeiro e uma segunda em março, todas de forma manual. A colheita manual da produção se dá em maio, seguido do beneficiamento e armazenamento que ocorre no mês de junho.

AS PRINCIPAIS CONQUISTA:
ü  Auto reconhecimento;
ü  Título da terra;
ü  Eletrificação rural;
ü  Água encanada para as familia;
ü  Conquista da logomarca do grupo de doceiras;
ü  Habitação rural;

INFRA ESTRUTURAS EXISTENTES:
ü  01 Posto de saúde;
ü  01 Colégio;
ü  02 poço tubular;
ü  01 cacimba jorrante;
ü  02 mini açude;
ü  01 Capela para celebração do festejo do padroeiro São Benedito
ü  Duas horta sistema pais;
ü  02 campo de futebol para lazer.

CURSOS E CAPACITAÇÕES:
v  Curso de fabricação de caseiros;
v  Curso de manejo sanitário e alimentar de caprinos/ovinos;
v  Curso de associativismo;
v  Curso de galinha caipira;
v  Curso empreendedor rural.

ACESSO AOS PROGRAMAS SOCIAIS DO GOVERNO FEDERAL:
PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA
APOSENTADORIA
VENDA DA PRODUÇÃO AGRÍCOLA


CONCLUSÃO
Durante a pesquisa foi importância a conversa com os idoso da comunidade, onde eu pode descobrir, a real história de minha comunidade, além de fazer análises em detalhes da história, fez-se o levantamento das estruturas existente em minha comunidade, pode entender os importante fatos mais importante como o auto reconhecimento das famílias em remanescente de quilombolas, isso significa algo de muita importância para a minha vida. No que diz respeito ao meu crescimento como pessoa e participante desse curso.


BIBLIOGRAFIA
FUNDAÇÃO PALMARES – MINC. Laudo Antropológico de identificação e delimitação do quilombo Tapuio. Nov./2004.

PLANO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTAVEL/ Projeto ATER no Quilombo EMATER/MDA/Nº 056/2007/META 18

DEPOIMENTOS:
- Luiz dos Santos 76 anos, neto do escravo José Altino, que serviu na “Casa Grande”.

-Aldelina Maria da Conceição, 77 anos, liderança e fundadora da comunidade.
-Claudio Henrique da Silva 44 anos, atual liderança e coordenador das comunidade quilombola do território dos cocais. 


















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