11 janeiro 2013

RELATOS DA VIDA REAL DE CARLOS ARAÚJO

CARLOS ARAÚJO É FORMADO EM HISTÓRIA,  É NATURAL DE BATALHA, MORA EM ESPERANTINA, CASADO, É PAI DE DOIS FILHOS, TRABALHOU POR MUITOS ANOS DE LOCUTOR DE RÁDIOS, TEM UMA VASTA EXPERIENCIA NA ÁREA DA COMUNICAÇÃO.
NA PASSAGEM DE SEU ANIVERSÁRIO, NO ANO DE 2012, RESOLVE ESCREVER A SUA TRAJETÓRIA DE VIDA ATÉ, OS 13 ANOS DE IDADE. UMA TRAJETÓRIA MUITO PARECIDA COM TODAS AQUELAS PESSOAS QUE VIVERAM NO CAMPO. EM SUA NARRAÇÃO, CONSTAM MUITOS OBJETOS EXISTENTES NO MUSEU DE ‘‘ ESPERANTINA’’.
NA ÍNTEGRA... POR CARLOS ARAÚJO

Pela passagem do meu aniversário hoje resolvi descrever de forma resumida o que eu vivi até os meus 13 anos de idade quando morei no interior nas décadas de 70 e 80.
 ´´OS TEMPOS MUDAM E COM ELES, AS COISAS E AS PESSOAS. QUEM PUDER LER ATÉ O FINAL VAI CONHECER UM POUCO DE COMO FOI A MINHA INFÂNCIA NO MEIO RURAL. ´´

No passado, tudo era natural e legítimo, desde o alimento que comíamos ao produto não perecível. Ah! Quantas saudades sinto, do ferro de gomar à brasa, da máquina de costura a pedalar de minha mãe, do fogão a lenha, das embiras de tucum, da lamparina que luminava minha casinha tão simples de palha e chão batido.
Saudade da cabaça que eu carregava água todo dia cedinho do olho d’água distante de casa, da cuia de cabaça e da coité de cujuba que minha vó fazia de forma artesanal, da colher de pau, do pote, do rádio a pilha, dos meus sapatos Kichutes que usava pra ir à escola todo feliz, do penico ao invés do sanitário, do refrigerante simba e do famoso Kero que tomava com bolacha padeiro às vezes o kissuque de uva resolvia o problema da fome.

Saudade das portas de esteiras de palha, das sacas que guardavam milho e feijão, dos paiós de arroz que meu fazia pra guardar o legume, saudades do desodorante alma de flor e dos perfumes charisma e Patchouli, dos jogos de bola que eu sempre gostei, saudades das brincadeiras com cavalos de talo de carnaúba. 

Sinto saudades das brincadeiras de roda, esconde-esconde, cair do poço, casamentos, passar anel, das brincadeiras de casinha, dos jogos de caipiro (DADO), jogo de peteca nas estradas e castanha nas “buícas”. Saudades das arapucas que eu fazia e pegava avoantes, nambu e juriti na roça, dos arrastões nas capembas de palmeira, das penitências e procissão com a santa pra pedir chuva, dos telefones com caixa de fósforos e cordão, das minhas bermudas remendadas, do banho de açude e pescarias nos riachos, do cuscuz do milho ralado no ralo muito cedo antes de pisar o arroz no pilão.

Saudades da radiola à pilha que animavam os matinês, do urucu que tirava pra fazer o corante caseiro, da saca de trança, do chapéu de palha, dos potes nas forquilhas ou na bileira, do abano, da trempe e do machado, da lenha, do debulhar de milho e feijão toda noite antes de dormir, do Melhoral alkassete que tomava para melhorar da barriga quando comia a fava da INAM no época da emergência, saudades dos leilões, brincadeiras de Judas na semana santa, besouros voadores guardados em caixinhas de fósforos, das tanajuras no caminho da roça, do cacimbão e da gangorra.
Saudades das brincadeiras de jogar pedras nos primos, de pular corda e dos roubos de melancia nas roças dos meus tios, das farinhadas. 

Saudade de ver minha saudosa vó com o fuso Torcendo linha do fio de algodão, das arupembas, kibanes, balaio, abano, saudade de ver meu pai fazendo esteira de palha de palmeira, dos jiraus de talo de palmeira, da gaiola do talo de buriti, das caieiras que eu fazia carvão e da cangalha para o jumento, dos cambitos pra carregar madeira e das ancoretas pra carregar água nos animais, do chiqueiro dos porcos e das galinhas que tinha muito no terreiro da minha casa, das mangas que derrubava com pedras de mão ou funda.

Saudades do canto do bem-te-vi, da peitica, do sabiá, canto da juriti e do nambu à tardinha, do capelão que zoava longe, da siricora e a cigarra que me acalentava no fim de tarde com seu canto penoso, saudades do catavento, das caçadas de baladeira dos meus entes queridos que já partiram e que comigo vivenciaram tudo isso que eu citei. 

Ah, quantas saudades de tudo isso que vivenciei! Minha infância foi assim e eu era feliz e não sabia. Sei que muitos que estão lendo tudo isso não conhecem essas coisas que vivenciei, mas alguns tiveram a mesma experiência de vida e viajarão no tempo com essas palavras. 

Era pobre? Talvez financeiramente, mas não de espírito e de falta de coragem para trabalhar e lutar pra chegar onde já estou. Pois apesar de tudo eu era uma pessoa feliz, mas não acomodada com todas as dificuldades. 
Hoje é óbvio, adquiri conhecimento, sabedoria, ganhei na loteria da vida real um “montão de amigos”, hoje tenho um lar confortável Graças a Deus. Hoje temos a tecnologia que não tínhamos naquela época. Tenho minha família linda que pra mim é à base de tudo e por isso vivo cada momento de minha vida com intensidade, enquanto posso. 
 



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