06 junho 2011


Museu com tesouro modernista no RS recebe só 600 visitas ao ano

Acervo inclui Candido Portinari, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e Matisse.
Sala está em universidade de Santana do Livramento, fronteira com Uruguai.

João Guedes Especial para o G1, em Santana do Livramento (RS)

Dono de um acervo com cerca de 150 obras de conhecidos artistas do Modernismo, entre eles Candido Portinari, Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti, o pequeno Museu Aspes/Urcamp, de Santana do Livramento (RS), repousa praticamente anônimo na periferia da cidade gaúcha de 82,5 mil habitantes, localizada a 500 quilômetros de Porto Alegre, na fronteira com o Uruguai.
A despeito da fama dos autores dos quadros e gravuras expostos na sala de 52 metros quadrados no tranquilo campus da Universidade da Região da Campanha (Urcamp), o local conta com poucos visitantes. Em média, são 600 por ano. Destes, cerca de 500 são estudantes de escolas locais levados em atividades de disciplinas de educação artística do Ensino Fundamental e Médio, segundo a professora Dionéia de Macedo, curadora do espaço.
Vista da sala Affonso Celso de Ouro Preto, onde estão expostos os quadros do acervo modernista do museu  (Foto: Duda Pinto/G1)Vista da sala Affonso Celso de Ouro Preto, onde estão expostos os quadros do acervo (Foto: Duda Pinto/G1)
Sem recursos para promover o acervo e atrair um público maior, o museu passa a maior parte do tempo fechado ao público. Por segurança e por não ter pessoal suficiente para manter o atendimento permanente, as visitas gratuitas podem ser feitas somente com hora marcada.
O museu conta com apenas duas funcionárias, uma delas a própria Dionéia, que se revezam na organização do espaço, na recepção dos visitantes e na conservação do acervo, que não fica integralmente exposto no museu. Como o ambiente comporta, no máximo, cerca de 30 obras, as demais ficam depositadas em local não revelado na chamada “reserva técnica”.
Ao longo do ano, há um rodízio entre os quadros, de acordo com Dionéia, para garantir que suas relíquias – que ainda inclui obras de Rodolfo Amoedo, Djanira, José Pancetti, Milton Dacosta, Augusto Rodrigues, Lasar Segall e do francês Henri Matisse - não permaneçam por muito tempo “escondidas”.
Quadro 'O Cangaceiro', de Candido Portinari, uma das relíquias do museu (Foto: Duda Pinto/G1)Quadro 'O Cangaceiro', de Candido Portinari, uma
das relíquias do museu (Foto: Duda Pinto/G1)
À essa rotação, a curadora tenta dar um sentido artístico, elaborando exposições temáticas que duram entre dois e três meses, como "Paisagens: através da natureza a arte se manifesta", que abriu as atividades de 2011 do museu, em meados de março.
De olho nos turistas dos 'free shops'Para junho, mês em que a atual sala do museu – batizada de Almirante Affonso Celso de Ouro Preto, primeiro dono da coleção - completa 15 anos, a curadoria optou por expôr apenas quadros dos principais nomes do acervo. Trata-se de um esforço para tentar dar mais visibilidade ao museu, que sonha em captar recursos junto à iniciativa privada e por meio de editais de modernização do Ministério da Cultura. “Queremos mais visitantes”, reitera Dionéia.
A curadora trabalha na elaboração de um Plano Museológico, espécie de planejamento estratégico considerada fundamental para buscar patrocínios que ajudariam a custear a restauração de parte das obras de arte, além de permitir a melhorias à estrutura.
Sem dinheiro para aplicar em publicidade, o museu comemora pequenas conquistas como a inclusão no catálogo da 9ª Semana de Museus, promovida pelo Ministério da Cultura entre 16 e 22 de maio. Além disso, vem adotando estratégias como a intensificação da programação de eventos e exposições, de acordo com Ely Costa, pró-reitora dos campus de Alegrete e de Santana do Livramento da Urcamp, entidade que abriga o museu.
Mapa de Santana do Livramento, no RS (Foto: Editoria de arte G1)
O desafio é de elevar o interesse pelo local entre os próprios moradores da cidade e entre os cerca de 5 mil turistas que visitam o município gaúcho todos os finais de semana para fazer compras nos "free shops" da cidade vizinha de Rivera, no lado uruguaio da fronteira.

A curadora acredita que uma maior divulgação seria o suficiente para atrair mais pessoas. “Muitos não vêm porque não sabem o que a gente tem aqui”, observa. Sem traçar metas de público, Dionéia prefere a comparação com um museu do município de Alegrete, também na Fronteira-Oeste gaúcha, que, de acordo ela, recebe 40 mil pessoas por ano. O número equivale praticamente à metade dos 77 mil visitantes que passaram em 2010 pelo Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), em Porto Alegre.

Uma maior procura pelo museu, entretanto, não provocaria a cobrança de ingressos, assegura Ely. Isso porque a venda de tíquetes não figura nos planos da entidade, que planeja engordar a receita com a venda de souvenires do museu. Lançada em 2010, a lojinha conta principalmente com canecas e chaveiros com reproduções dos quadros dos artistas mais famosos.
'Casa da Maluh em Búzios', pintura de Djanira que integra o acervo (Foto: Duda Pinto/G1)'Casa da Maluh em Búzios', pintura de Djanira que
integra o acervo (Foto: Duda Pinto/G1)
De 'castigo'As 148 peças do Museu Aspes/Urcamp não podem ser encaminhadas, mesmo que temporariamente, para exposições em outros municípios ou Estados. A permanência em Santana do Livramento é uma exigência prevista no testamento da escritora carioca Maluh de Ouro Preto, falecida em 1988.

Sem herdeiros, Maluh decidiu doar a coleção de arte deixada pelo seu pai, o Almirante Affonso Celso de Ouro Preto, para uma instituição da cidade de seus avós maternos. A iniciativa seguiu sugestão de Jovita Albornoz, uma prima gaúcha de Maluh que frenquentava a casa dos Ouro Preto, no Rio. A residência era decorada com a coleção modernista.

A aposentada Carmen Maria Serralta, filha de Jovita, lembra que, inicialmente, Maluh pretendia doar a coleção para o município de Ouro Preto (MG), mas teria mudado de ideia em função do mau estado de conservação observado por ela nas coleções de arte da cidade mineira nos anos 70. Ainda no final daquela década, Maluh determinou a doação póstuma de seu acervo particular para a Associação Santanense Pró-Ensino Superior (Aspes), instituição que criou o campus universitário local, hoje operado pela Urcamp.

Com a morte da escritora, no fim dos anos 1980, as obras foram logo levadas para Aspes, permitindo a criação do museu ainda em 1988, em salas adaptadas pela instituição. Em 1996, as obras forma levadas para o atual local, no prédio administrativo do campus da Urcamp em Livramento.

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