15 maio 2011

O Massacre Dos Ciganos


                                 História

                                                                Histórias de Esperantina

                                                                 Massacre dos ciganos

O nordeste brasileiro no início deste século manteve muitos conflitos entre
famílias e posteriormente o cangaço independente.

As diferenças tradicionais e insubordinação levou tribos nômades a cometer
muitas irregularidades por onde passavam. Vindo do Ceará, com destino ao
Maranhão os ciganos, no ano de 1913, encontravam-se no nosso estado, em
Peixe (Nossa Senhora dos Remédios), onde invadiram a loja do Sr. Antonio do
Rego C. Branco. O chefe do grupo, Benjamim da Rocha Medrado, dirigiu-se ao
Sr. Antonio do Rego, pedindo cachaça e vinho. O Sr. Antonio do Rego serviu
aos bandoleiros o que eles pediram. Depois de servidos, o chefe do bando
sentou-se em uma cadeira que estava próxima ao balcão, sacou da bota enorme
faca e colocou-a sobre Antonio do Rego, que se achava debruçado sobre o
balcão, pelo lado de dentro. Tirando a faca, aponta para um dos companheiros
e diz: -?Olha, fulano, um espinho, por menor que seja, entrando em nosso
corpo nos incomoda; avalia esta, toda metida no corpo do diabo?!

Dito isso, pediu um vidro de óleo, abriu e passou no bigode e cabelo e
pergunto o preço. Respondeu o Sr. Antonio do Rego que custava 2$600. Replica
o cigano: -?só vale dez tostões e é o que pago?. Mandou pegar café e disse a
mesma coisa sobre o preço. Pegou os copos que foram postos para servir o
vinho e atirou-os sobre a prateleira, fazendo descer copos que estavam
embrulhados, expostos à venda. Disse injúria e afirmou: -?Seu Antonio do
Rego, o senhor merece é uma visita do Antonio Silvino?! Retirou-se com
zombarias e risadas.

Depois do ataque, o Sr. Antonio do Rego seguiu para Barras, de onde
telegrafou ao governador e secretário de polícia pedindo providências.

O governador Miguel Rosa organizou com o secretário de polícia uma tropa de
volantes comandada pelo 2º tenente Manoel da Cruz Oliveira, que partiu de
Teresina na manhã de cinco de novembro num vapor com destino a Miguel Ales.
Chegaram ali no dia sete e encontraram o cigano por alcunha de ?Seu homem?,
com seu pequeno bando. O senhor Manoel da Cruz intimou-a retirar-se do nosso
território, em virtude de ordem, por escrito, do governo do Estado. Seguiu o
2º tenente para Marruás onde teve notícias dos ciganos a umas cinco léguas,
no lugar Campo Largo. Estes obedeciam ao líder Liberato Guerreiro, que havia
jurado, na casa do coronel Marcelino Rego, tirar a vida do capitão Antonio
Rego.

Chegando a força oficial a Campo Largo de madrugada, o tenente Manoel da
Cruz postou a força policial deitada em linha de atiradores, a uns 60 metros
do acampamento dos ciganos. Mandou ter com eles o guia de nome Abel intimar
Liberato a comparecer à sua presença. Ordenado a sair de nosso território,
respondeu, arrogantemente, que não se retiraria, nem mesmo se fosse preciso
lutar. O tenente Oliveira prendeu Liberato Guerreiro, entregando-o ao 1º
sargento Anísio e ao cabo Leandro. Em seguida ordenou que a força avançasse
acelerado rumo à casa ocupada pelos ciganos sendo recebidos trinta metros
adiante com alguns tiros. Vendo que seria necessário reagir energicamente,
ordenou que deitasse a força e desse uma descarga na mesma direção de onde
partiram os tiros. Protegidos pela noite, os ciganos fugiram. Chegando ao
local em que antes se achavam os fugitivos, encontraram uma mulher morta por
bala da força e, pelos sinais de sangue encontrados, é possível que havido
feridos. O dono da casa, um pobre lavrador que os ciganos obrigaram a
dar-lhes pousada e alimento foi ferido no ventre por bala de rifle, pois
deixara um orifício de mais de cinco centímetros na saída. Por ocasião do
tiroteio o cigano Liberato Guerreiro tentou matar o 1º sargento Anísio com
um punhal, travou-se então uma luta corporal que acabou com a morte do
cigano. O civil, dono da casa veio a morrer.

Regressando a Marruás, encontraram no caminho um pequeno grupo de nove
ciganos que não resistiram às ordens e se retiram do nosso território. Em
poder deles não encontraram nenhuma arma. No Marruás, deu descanso à tropa e
foi ter ao lugar Tanquinho, onde constava achar um grupo de cigano, o que
não era verdade. Dali seguiu novamente a Marruás e a Peixe onde recebeu um
guia de confiança e dirigiu-se ao Retiro da Boa Esperança, percorrendo
diversos lugares e pousando no lugar Beiru. Ai teve notícias do bando
chefiado por Benjamim da Rocha Medrado que pernoitara a uma légua de
distância, no lugar Engano. Resolveu o tenente Oliveira seguir com a tropa
somente pela manhã, a fim de evitar algum incidente como se deu em Campo
Largo. Chegando lá, o bando já havia levantado acampamento. Continuou a
tropa a marchar para o Retiro, alcançando-os a duas léguas do povoado.
Tentou dialogar, sendo respondido a bala, que só não teve efeito devido à
distância de os quatrocentos metros que se encontraram andando a pé e a
cavalo. A força policial acompanhou-os na entrada do povoado na manhã do dia
11 de novembro daquele ano de 1913. Ao entrar no Retiro da Boa Esperança,
houve o choque do bando, cerca de duzentos ciganos com a força policial. A
força policial deitada respondeu ao fogo. Os ciganos atiravam de dentro do
povoado.

Encurralados, refugiaram-se na casa do Sr. Manoel Lages, dizendo-se
perseguidos e que eram homens de bem. A força policial procurou logo cercar
a casa, auxiliado pelo proprietário, que um dos ciganos quisera, segundo
ela, matar a pistola, quando procurava tirar o filho dos braços de uma
cigana. O cabo Leandro foi mandado com dez praças para intimá-los a saírem e
renderem-se entregando as armas. Benjamim Medrado, o chefe do bando,
respondeu que não se sujeitava a intimações e que o destino dele era aquele
e não entregava as armas.

A casa do coronel Manoel Lages foi invadida, com seu auxílio, pela força
policial, tendo os ciganos fugido pelos fundos, refugiaram-se nas matas
próximas, de onde fizeram fogo a força policial. O tenente Manoel da Cruz
Oliveira também ordenara abrir fogo sobre eles. Morreram no tiroteio nove
ciganos, inclusive o chefe Benjamim Medrado. Foram baleados um menino
cigano, duas ciganas e um homem do povo. Dos fugitivos, muitos voltaram para
o Ceará, outros atravessaram o Parnaíba para o Maranhão.

Seus bens foram confiscados, muitos deles devolvidos a seus donos. As
mulheres ciganas foram amparadas, recebendo transporte, alimento e dinheiro.

Inquérito policial foi instaurado para apurar os crimes, depuseram muitas
testemunhas. Os ciganos mortos não tiveram nenhum tratamento, sendo
enterrados no cemitério velho, em vala comum.

O segundo tenente Manoel da Cruz Oliveira, permaneceu no Retiro da Boa
Esperança por mais três dias, depois voltou a Teresina sendo recebido como
herói. Mais tarde, após apuração do massacre foi afastado da força policial
a bem do serviço público, tendo sido seus atos julgados arbitrários.

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